Fotografia de cinema.

Por Alexandre Carrasco, editor da Revista Fevereiro, docente do Departamento de Filosofia da EFLCH/Unifesp.

 

Dia 08/11 último morreu Raoul Coutard (16 de setembro de 1924- 08 de novembro de 2016). Maestro da fotografia de cinema francês e da nouvelle vague especialmente, fotografou todas as obras primas do pós segunda guerra mundial. Durante 11 anos, antes do cinema, foi fotógrafo de guerra, trabalhando para o exército francês em sua ocupação na Indochina, cujo fim dá início ao que depois se chamou Guerra do Vietnã. Mestre da filmagem em campo aberto, da “camerastylo”, máquina ao ombro, luz natural ou quase.  Na ocasião do primeiro filme de Godard, À bout de soufle (1960) (seja Acossado, seja no último fôlego) era o fotógrafo escolhido pelo produtor, Beauregard, contrariando Godard. Na sequência final – a polícia atrás (ou emboscando) Belmondo, em carreira final em uma estreita rua parisiense, o último e derradeiro fôlego – está sua marca, seu caráter, sua estirpe. Não apenas nesse feito, naturalmente. Acostumado a captar imagens em situação desconfortáveis, imprevisíveis ou extremas, RC acostumou-se à luz natural, construiu espontaneamente sua própria Dióptrica,  o que dava, sob seus cuidados,  não só em uma textura documental à imagem mas também mudava-lhe a escala (algo não imediatamente percebido): por detrás da luz artificial, do decoro de set, das falas ensaiadas, do figurino engomado, a  crueza estudada de sua captação da imagem revelava não uma nova imagem, um aqui ou ali qualquer, mas, sim, uma nova proximidade. Não é a mera imagem de que se trata,  é de um novo sentido da imagem.

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Nos extraordinários filmes de Godard que fotografou, os da minha preferência, – fico nos exemplos mais óbvios, que, por sua vez, não são exemplos, são exemplares -, Pierrot le Fou (1965) e Le Mépris (1963), a fotografia e sua proximidade inédita deixa aparecer o que hoje chamaríamos de, talvez não no exato sentido contemporânea da expressão, questão de gênero: o limite da proximidade entre homem e mulher, os limites entre um e outro, e entre o masculino e o feminino. Colocando a coisa assim, em termos binários e estritos, talvez a tal questão fique realmente passadista para os progressos dos discursos e da prática de hoje em dia. E que bom, se for isso. Talvez, porém, esses filmes não se deixem pegar assim de modo tão simples, porque são um pouco mais que simples filmes. Menos a questão de gênero, mais o amor, esse mesmo, como experiência comum e intransferível entre duas pessoas, sendo elas o que quiserem ser, conforme tempo, modo, lugar e gênero. O quanto o amor (sua ideia, sua ambição, sua mera imagem ou sua miragem) nos aproxima do outro, amado e mais que amado, fundido em uma fantasia (e não em um fantasma) corpo e corpo, pensamento e pensamento, cheiro e cheiro, hábito e modos, pessoa e pessoa. E quando a imagem da fantasia se desfaz em sua própria ilusão e a substância dessa falta magoa mais do que sua própria imagem revelada, o que antes se cria indestrutível já não o é mais. Vai-se  longe nessa metafísica, concedamos. Não se pretendia. O que se pretendia era notar o quanto a imagem da proximidade, valor e sentido, inventada e redescoberta pela fotografia de RC, torna possível um cinema que investiga a maior de todas as fantasias, a maior de todas as imagens: a imagem do outro, e, ele mesmo, além da própria imagem.

Dois planos sequências impressionantes em Pierrot le fou, Ana Karina ao centro, cantando, mostram uma leveza, uma mobilidade tenaz, inalcançável,  digna do olho humano. Não de um olho humano qualquer. Um olho que se aproxima, e se aproxima, e entrega o precioso olhar de si para o outro. Ela canta, entre séria e fugaz, a timidez de sua linha da vida, mal marcando a palma da mão, sabendo que a vida vivida pode ser tímida, mesmo sendo enorme. Lá estava RC tomando um longo plano-sequência, Belmondo e Ana Karina, em um embate pelo amor à vida e pela vida do amor,  ao ar livre, bucólicos tal como uma poesia campestre.

Em O Desprezo, que alguém já disse ser o mais lindo filme em cinemascope da história do cinema, a emocionante tomada final, Godard, Fritz Lang, Michel Picolli, um Ulisses kitsch e sua espada de madeira, o que vemos não é o olhar do herói que avista uma Ítaca perdida e tão logo reencontrada. Vemos sobretudo o mar convidando à deriva, porque Ítaca já não há mais.

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Antes, no mesmo filme, a fotografia de RC não se furta em  explorar a intimidade inquieta, furiosa, e prestes a torna-se ruína, de Bardot e Piccoli, na longa sequência do interior da casa: precisamos estar ali, precisamos ver o que só a intimidade vê, precisamos vê-la intimamente, por dentro e de dentro. A intimidade fere e pacifica. Essa é a fotografia de RC.

Não sei qual a razão de, repentinamente, essas considerações me virem assim, um pouco de chofre, um pouco imperiosas, um pouco absolutas, com a morte de RC. Fizeram-me pensar no que vejo e no que já vi, na luz que envolve as coisas, em algumas tristezas, outras alegrias, tudo misturado a um certo sem sentido suave, de tudo, e para tudo. É a pálida luz natural das coisas. Como se pudéssemos nos aferrar apenas àquele instante, àquele, um átimo, o instante em que um olhar vai tão fundo, tão fundo, e encontra a carne que nem o tato alcança.

RC ainda fotografou soberbamente Jules e Jim (1962), esse impressionante filme de Trauffaut. Uma mulher no centro de toda cena, seus amores às voltas com o seu coração. A proximidade selvagem do trio não se presta a revelar alguma suposta leviandade ou bruxaria de Catherine (machismo,  meus senhores, a saída fácil pelo machismo), mas uma delicadeza inesperada, uma delicadeza envolvente, um furor no acerbo amor.

Essa delicadeza nem sempre vem com o amor, ainda que o amor seja amor, o amor prescinde por vezes dela. Mas ainda há: amor e delicadeza por aí. Depois das palavras duras, duríssimas, dos choros, da muita vontade de matar e morrer, penso em você como quem poderia amar de novo, e de novo, pela primeira vez, sendo a segunda, a segunda sendo a primeira, se não deixei de te amar, como talvez não tenha deixado, e nunca deixe. A morte dá uma segunda chance para todos nós.  São as lentes de RC.

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