Resistência e política.

Por Monica Stival, docente do Departamento de Filosofia da UFscar.

 

Ilustração Rafael Moralez.

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O modo de organização das ocupações dos secundaristas é extremamente interessante (http://www.vice.com/pt_br/read/ocupacao-cep-curitiba-parana-2016). Essa espécie de autogestão, contudo, parece sustentável apenas quando há um inimigo claro, comum, a ser combatido (esta é uma diferença decisiva entre o movimento da primavera de 2016 e as “manifestações” de junho de 2013). Por que não é tão simples encontrar movimentos propositivos com tamanha unidade?

Essa pergunta não pretende diminuir em nada o papel fundamental de resistência que tem sido levado a cabo pelos estudantes secundaristas de escolas públicas. Primeiro, contra a “reorganização” do ensino no estado de São Paulo; agora, contra as medidas deploráveis do governo Temer.

Muito pelo contrário, é preciso partir da constatação de que este movimento teve a coragem necessária para dizer “não” a este modo de governo, a essas ações governamentais, de uma maneira diferente daquela resistência que já faz água, a greve sindical. E por que este modelo, que protagonizou lutas importantes do século XX , já não move muito mais do que acordos previstos e precários de acerto salarial?

A representação política, salvo engano, não está exatamente “em crise”. Ela nasceu em crise, já que se define por uma impossibilidade fundamental, que é a coincidência entre vontade particular e “bem comum”.

Algumas experiências procuram minimizar essa distância por meio de uma comunidade específica, isto é, por meio de instâncias colegiadas de gestão, proposição e/ou controle. Dos conselhos de participação social às experiências colegiadas de gestão da universidade pública (esta que se procura a todo custo desprezar, mas que mantém a riqueza da organização do ensino superior público em contraposição ao ensino privado – decide-se coletivamente grande parte do que envolve os meios e a própria finalidade da instituição), os espaços relativamente comuns de organização encontram geralmente limites na extensão numérica de pessoas envolvidas e finalidades em jogo. É quando a representação parece inescapável; é quando a representação é de fato inescapável e até mesmo desejável. [para evitar que este último modelo fagocite o primeiro, para evitar que a representação exclua toda forma coletiva de organização, parece urgente garantir pelo menos a institucionalidade das formas colegiadas de gestão, que poderiam se estender inclusive a organismos privados, distinguindo propriedade e gestão…]

Do ponto de vista dos “representados”, a representação política – entendida, em linhas muito gerais, como autorização para agir e falar em nome de um certo número de indivíduos – é hoje “verificada” a posteriori: “fulano não me representa”, “isso me representa”, “essa fala me representa”. Tudo se passa como uma espécie de referendo individual a ações e falas determinadas: “tal coisa não me representa”.

Deste ponto de vista, faz alguns anos que a noção de representação passa a ter entre nós o significado de um conteúdo realizado, ratificado ou não por manifestações individuais em diversas esferas (em cartazes de manifestações, nas redes sociais ou em reuniões e assembleias). Mais do que a autorização prévia que permite institucionalizar demandas, a representação política torna-se expressão de identificações ou recusas pontuais.

Em uma perspectiva ou em outra, em função do cheque em branco ou na cobrança da fatura, dificilmente vemos aquele famigerado “bem comum” em jogo na perspectiva daquele que vota e se faz representar, como critério da assinatura do cheque ou como critério do faturamento.

Viu-se em cartazes de norte-americanos contrários à guerra no Iraque frases como “não em meu nome”; viu-se em assembleias estudantis cartazes dizendo “tire seu cadeado dos meus direitos”; viu-se gritar contra ruas cheias de gente o “meu direito de ir e vir”; viu-se a luta, necessária em seu momento (que pode avançar em direções diversas…), exigir “o direito ao meu corpo”.

[nota – sabendo da polêmica desta última referência, vale dizer que é fundamental recusar o imaginário machista de que a propriedade do corpo da mulher é do Estado ou do homem; porém, transferir a ideia da propriedade é um passo, ainda aquém da exigência de um sentido público (inclusive de saúde pública) dos efeitos nefastos do machismo, como avança a temática da luta contra a cultura do estupro.]

Mesmo aqueles que pediam saúde e educação (Qual? Como? Pra quem?) em junho de 2013 carregavam cada um o seu cartaz. A aparente demanda social é muitas vezes a máscara de uma posição individual no cenário político. A representação é encenada, na prática, como mais um direito liberal, o de escolher ser identificado ou não com esse ou aquele ato ou fala.

Quando demandas mais amplas não se fazem ouvir, diz-se que há uma crise da representação… (ou aparece a descrença política, como mostram os números das abstenções eleitorais). Não seria essa crise a descoberta de que a representação, tal como a maioria de nós (os representados) a pensamos hoje, e principalmente tal como a vivemos, não se refere a construções efetivamente coletivas, não coloca em cena um voto que se paute por alguma identificação que ultrapasse o juízo autônomo sem lastro público? (uma coisa é exprimir opinião individual, outra coisa é exprimir opinião formada individualmente…)

Se a mediação que a representação exerce já é problemática por si mesma, talvez ela o seja mais ainda quando faz a mediação entre indivíduos e Estado, e não coletividades/comunidades e Estado.

Mas por que estaríamos descobrindo agora – chamando de “crise” a representação política, nesse início de século XXI – a dificuldade de unir demanda coletiva e representação (cujo mecanismo favorece a posição individual)? A questão teórica está posta há séculos, mas agora vivemos intensamente a experiência dessa aparente contradição.

Diversas organizações políticas – como os secundaristas em luta – pautam-se principalmente pela horizontalidade, pela ideia de coletivos sem a figura previamente autorizada a agir e falar em nome de todos. Isso não quer dizer que não haja delegação para tarefas ou problemas específicos. Porém, elas percebem que a conquista de uma finalidade comum não permite essa mediação previamente definida e formal (independente de conteúdo) entre representante e representados. Não foi essa a descoberta amarga do modelo sindical? E talvez, também, da forma partido?

Esse tipo de experiência da contradição entre o pensamento comum e a representação tal como a maioria de nós a vive[1] (individualizada) ganha força quando ações governamentais explicitam, pela necessidade de recusá-las, esse “bem comum”. A resistência fornece sentido concreto à unidade. Porém, ela parece se perder quando está em jogo imaginar um horizonte político positivo que dê sentido às ações além da resistência.

Se horizontalidade e representação política não são excludentes e funcionam em níveis diferentes (conforme tema e quantidade de envolvidos), esperemos que a atitude crítica de resistência não exclua o imaginário que possa colocar em cena um horizonte político – queiramos ou não, como representação. Que a recusa seja um meio para a política, não um fim em si mesmo (a recusa não é, por si mesma, ação política, se a unidade for negativa, circunstancial, embora essa unidade forjada nas escolas públicas seja necessária, dadas as circunstâncias, e rica em efeitos “coletivizantes”, diferentemente da multidão de junho).

Enquanto não soubermos passar da recusa e resistência a um horizonte político que possa ser institucionalizado, sem cair nas armadilhas que a representação política engendra, não estaremos fadados a uma sequência fatigante de movimentação eventual?

(contamos com muitas experiências de organizações, ocupações e resistências nesse início de século, concomitantes à expansão da direita…)

Assim, parece que não se trata de se desfazer completamente da representação, o que seria demasiadamente abstrato, mas explicitar seus limites essenciais para impedir que a inevitável distância entre representante e representados seja grande demais[2], assim como usá-la a favor de pautas publicamente formuladas, usá-la como meio para finalidades comuns; o que a proposta de prévias de esquerda para 2018 pode ajudar a fazer.

Parece que a esquerda quer e precisa refletir sobre isso, imaginando um novo horizonte político – e as ocupações de 2016 já deram grande passo ao insistir na ideia de que política se discute e ao mostrar que não queremos essas ações, assim como não quisemos esse governo.

 

 

PS – O texto publicado na Coluna Anpof com o título “Organizar, ocupar e resistir! O ‘lugar’ da reflexão filosófica no protagonismo dos/as estudantes-jovens paranaenses” mostra a riqueza do imaginário despertado pelos movimentos de ocupação por secundaristas.

[1] Talvez a transformação do “trabalhador” em “empresário” só signifique um problema para a esquerda organizada na medida em que o voto não corporativo é entendido como voto que dissolve toda perspectiva comunitária/coletiva; ele é fruto da razão privada. Cf. https://www.nexojornal.com.br/entrevista/2016/11/01/Como-a-substitui%C3%A7%C3%A3o-do-%E2%80%98trabalhador%E2%80%99-pelo-%E2%80%98empreendedor%E2%80%99-afeta-a-esquerda

[2] Não explicitar seus limites pode fazer parecer que a eleição de um representante basta como política, e que quando a maioria da sociedade perde na disputa cotidiana por políticas públicas e direitos sociais, significa uma “crise” da coincidência ótima que deveria haver, supostamente, entre aquele e essa grande parte da sociedade.

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