Nota sobre as eleições municipais.

Nota sobre as eleições municipais: a angústia da esquerda diante das urnas

Na iminência das eleições de domingo, as esquerdas só podem estar apreensivas. Primeiro pleito após o golpe parlamentar de 31 de agosto, o resultado dessas eleições tende a selar seu destino por um período ainda indeterminado. Depois de uma boa largada, os partidos de esquerda de corte mais programático já contabilizam os efeitos negativos trazidos pela mini-reforma eleitoral arquitetada por Eduardo Cunha e pela falta de uma estrutura mais consolidada; os partidos mais pragmáticos, por sua vez, sentem a desidratação do seu arco de alianças e os efeitos de uma instrumentalização de investigações jurídicas com claro objetivo eleitoral. É de se supor que esse processo de desgaste e isolamento da esquerda, sobretudo nas grandes cidades, estivesse entre os objetivos da concertação que precipitou o golpe parlamentar há pouco ocorrido. Do ponto de vista das forças que o impuseram, o papel estratégico dessas eleições é duplo. Em primeiro lugar, trata-se de escantear a oposição e, assim, permitir o livre trâmite, prático e ideológico, das reformas regressivas que estão engatilhadas para a semana seguinte à apuração. Simultaneamente, trata-se de fincar as primeiras estacas do campo de alianças que vai buscar polarizar, em um campo inteiramente dominado por forças da direita, as eleições presidenciais de 2018.

 

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Mesmo com todas as evidências de que as eleições municipais seriam decisivas para um processo de “pacificação do país” que tem como base a anulação dos focos de resistência ao projeto que se quer impor, a esquerda não preparou uma estratégia eleitoral à altura desse momento histórico . Pelo contrário: ela saiu dividida em praticamente todas as cidades de peso no país, em alguns casos protagonizando antagonismos fratricidas que, maximizando diferenças e minimizando identidades, deram combustível às candidaturas de centro e de direita. . Se, por um lado, há que fazer a crítica profunda de certas correntes do PT que, por diferentes motivos, perderam de vista o sentido programático da esquerda, isolaram-se dos movimentos sociais e ainda praticaram ou foram coniventes com corrupção; por outro, há de se evitar toda a forma de sectarismo e tentações voluntaristas que equivalem a abdicar de disputar efetivamente um papel transformador que a esquerda pode ter ao galgar democraticamente ao poder . Nesse sentido, imediatamente – sem prejuízo de se repensar a resposta de longo prazo – deveria envolver alguma união de forças.

 

Esse quadro nacional, de extrema adversidade para as esquerdas, se exprime com maior eloqüência e nitidez na disputa eleitoral de São Paulo, sede eleitoral de alguns dos maiores protagonistas do jogo político do próximo ciclo. Há, com efeito, ao menos duas candidaturas presidenciais cuja força dependerá de seu sucesso no entreposto municipal. Alckmin, por um lado, tem em João Dória o pressuposto para hegemonizar o PSDB paulistano e garantir a legenda para 2018. Nadando em outra raia, Serra forjou a chapa Suplicy-Matarazzo para garantir base para o seu inarredável projeto presidencial. Pode-se ainda observar que Russomano, um ponto de fuga para 2018, evidencia todavia a força crescente de grupos de midiáticos-religiosos de forjarem candidatos competitivos que possam representar seus interesses.

Os esteios de resistência que a esquerda contaria nesse quadro estão representados nas candidaturas de Luiza Erundina e Fernando Haddad, ambas posicionadas no campo da esquerda democrática. A primeira candidatura representa o projeto mais do que legítimo de construção de um partido à esquerda do PT encabeçada por um quadro histórico da luta democrática, a segunda representa a continuidade de uma gestão ousada onde o PT apostou as suas maiores esperanças de renovação. Não obstante a evidente legitimidade de ambas as candidaturas, o acirramento da disputa e a enorme importância de ter ao menos uma candidatura de esquerda no segundo turno, nos fazem recomendar o voto em Fernando Haddad. O apoio a Haddad não se deve, todavia, apenas a uma lógica de se sufragar o menos pior dos candidatos com chances de passar para o segundo turno. Dentro de limitações importantes, a prefeitura do PT perseguiu pautas que definitivamente se situam no campo da esquerda, procurando incidir sobre dinâmicas profundas do desenvolvimento da cidade e sua sociabilidade: 1) limitação da especulação imobiliária via Plano Diretor; 2) democratização e ampliação do espaço público como lugar de encontro cultural e político; 3) amplo incentivo à melhoria da mobilidade urbana, priorizando o transporte público; 4) políticas distributivas, como o IPTU progressivo, calcadas no reconhecimento das desigualdades, e não em seu ocultamento ideológico; 5) políticas de reconhecimento dos direitos e proteção das minorias (mulheres e LGBT); 6) política humanista e não policial para a região da Cracolândia; 7) no campo do ensino, a introdução de estudos da história africana no currículo escolar, o que busca alterar o modo como a sociedade brasileira representa a si mesma – como uma sociedade branca e europeia –, e assim corrigir, simbolicamente, a injustiça histórica com os negros sobre a qual a história do Brasil se ergueu. Em que pese o caráter não-exaustivo dessas políticas, assim como a maneira limitada pela qual elas puderam ser efetivamente realizadas, deve-se reconhecer que elas se situam definitivamente no horizonte da esquerda democrática.

 

A Revista Fevereiro declara seu apoio e chama votos à candidatura de Fernando Haddad. Obviamente que, passado o pleito, resta em aberto uma discussão profunda sobre os rumos práticos e teóricos da esquerda em geral. A perseverança na construção de um partido programático à esquerda da corrente majoritária do PT, envolvendo crítica às posições equivocadas que ela tomou nos últimos anos, é extremamente necessária e bem-vinda. Nesse momento, porém, acreditamos que as forças de esquerda devem se unir em torno da candidatura , para com uma passagem ao segundo turno, possa obter uma plataforma de resistência à ascensão da direita.

 

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Comissão Editorial da Fevereiro São Paulo, 1 de outubro de 2016

Ilustrações Rafael Moralez.

 

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Uma resposta para Nota sobre as eleições municipais.

  1. democriacao disse:

    Vou votar contra contra um candidato mentiroso, esse Dória, que já ocupou cargos políticos e se diz um não-político, além de suas falsas declarações sobre uma suposta origem humilde antes de se tornar empresário de “sucesso”. Quem mente no início mente muito mais no fim. Mas também vou votar em Haddad, porque ele representa a inovação, apesar de todas as cagadas políticas do seu partido.

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