Poemas de Roberto Bolaño

 

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Tradução: Fabrício Corsaletti

Ilustração: Débora Bolsoni

 

 

DEVOÇÃO DE ROBERTO BOLAÑO

 

No final de 1992 ele estava muito doente

e havia se separado de sua mulher.

Esta era a maldita verdade:

estava sozinho e fodido

e costumava pensar que lhe restava pouco tempo.

Porém os sonhos, alheios à doença,

voltavam toda noite

com uma fidelidade que conseguia assombrá-lo.

Os sonhos o transportavam a esse país mágico

que ele e mais ninguém chamava de Cidade do México

e Lisa e Mario Santiago

lendo um poema

e tantas outras coisas boas e dignas

dos mais inflamados elogios.

Doente e sozinho, ele sonhava

e enfrentava os dias que marchavam inexoráveis

até o fim de mais um ano.

E disso tirava um pouco de força e de valor.

México, os passos fosforescentes da noite,

a música que soava nas esquinas

onde outrora se congelavam as putas

(no coração de gelo de Colônia Guerrero)

lhe proporcionavam o alimento necessário

para cerrar os dentes

e não chorar de medo.

 

 

Dentro de mil anos não restará nada

de quanto se escreveu neste século.

Lerão frases soltas, rastros

de mulheres perdidas,

fragmentos de crianças imóveis,

teus olhos lentos e verdes

simplesmente não existirão.

Será como a Antologia Grega,

ainda mais distante,

como uma praia no inverno

para outro assombro e outra indiferença.

 

 

DOIS POEMAS PARA LAUTARO BOLAÑO

 

Leia os velhos poetas

 

Leia os velhos poetas, meu filho

e não se arrependerá

Entre as teias de aranha e as madeiras podres

de barcos encalhados no Purgatório

lá estão eles

cantando!

ridículos e heroicos!

Os velhos poetas

Palpitantes em suas oferendas

Nômades abertos ao meio e oferecidos

ao Nada

(mas eles não vivem no Nada

e sim nos Sonhos)

Leia os velhos poetas

e guarde seus livros

É um dos poucos conselhos

que pode lhe dar seu pai

 

 

Biblioteca

 

Livros que compro

Entre as estranhas chuvas

E o calor

De 1992

E que já li

Ou que nunca lerei

Livros para que leia meu filho

A biblioteca de Lautaro

Que deverá resistir

A outras chuvas

E outros calores infernais

— Assim, a missão é esta:

Resisti queridos livrinhos

Atravessai os dias como cavaleiros medievais

E cuidai de meu filho

Nos anos vindouros

 

 

ENTRE AS MOSCAS

 

Poetas troianos

Já nada do que podia ser vosso

Existe

 

Nem templos nem jardins

Nem poesia

 

Sois livres

Admiráveis poetas troianos

 

 

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