Obituário

Por: Plínio Smith

 

Cebola quadro (2)

 

Péricles da Silva (1984-2016)

 

Neste último domingo, dia 17 de abril de 2016, aos trinta e dois anos, morreu Péricles da Silva, o mais ilustre político de nossa democracia. É meu dever, como seu profundo admirador, e é minha função, como redator chefe da seção de obituários deste conceituado jornal, escrever não somente uma breve nota sobre a sua morte, mas também um comentário geral sobre a sua vida. Não é fácil falar sobre uma pessoa tão eminente logo após a sua morte. Confesso que eu preferiria honrá-lo com ações, se continuasse vivo, em vez de ser obrigado a recorrer somente a palavras. Como acertar a justa medida da eloquência? Os que o conheceram poderão achar que eu digo pouco; os que não o conheceram poderão imaginar que eu exagero, porque, ao se compararem com ele, se sentirão diminuídos. Assim são os seres humanos: apequenam-se diante das grandes pessoas, mas demoram a reconhecer as que o são.

Talvez eu deva começar lembrando os pais de Péricles, que tanto se esforçaram na sua educação. O pai era imigrante português, enquanto a mãe, já nascida entre nós, tinha origem índia, africana e italiana. De um lado, trabalharam com afinco e conseguiram juntar riqueza suficiente para lhe dar uma boa condição de vida; de outro, e isso é o mais importante, instruíram-no segundo os melhores princípios: o princípio da autonomia; o princípio do equilíbrio; o respeito do governo aos interesses da maioria, não de poucos; o tratamento igual e justo das pessoas, independente de raça ou credo, sem deixar de lado o reconhecimento do mérito (em oposição ao mero privilégio). Sempre diziam ao filho que a pobreza e origem humilde não são impedimentos para a ascensão pública, desde que se mostre capacidade para os assuntos públicos, e que se deve prestar atenção às leis para não praticar o mal, em especial àquelas promulgadas em benefício dos necessitados. Tampouco se esqueceram dos esportes e da disciplina na sua formação. Quem o conheceu sabe do seu amor pelo futebol e de sua capacidade nas atividades a que se dedicava. Treinado nas artes marciais, foi um bom lutador de judô e não temia nada, enfrentando as dificuldades e as intempéries que o acaso ou a necessidade lhe impusessem.

Desde cedo, Péricles cultivou o bom gosto nas artes: embora amante da beleza, era simples em seus gostos; cultivou a mente, sem perder o rigor. Não desprezou o valor da oratória, convencendo com seus discursos até seus adversários. Soube usar sem ostentação seu dinheiro e dizia que confessar a pobreza não é uma desgraça: a desgraça está em não fazer nada para evitá-la. Apesar de dedicar-se à família, jamais se furtou de participar da vida pública, entendendo que a ausência das questões públicas não é algo indiferente, mas danoso. Esteve em todos os grandes debates nacionais, sustentando que o grande impedimento para a ação não é a discussão, mas a falta do discernimento que se ganha com a discussão preparatória para a ação. Criticava aqueles que separavam pensamento e ação, com o seguinte refrão: “muitos agem sem pensar e aqueles que pensam ficam sem agir”. Estava sempre rodeado de amigos por causa do seu caráter animado e generoso, preferindo fazer a obter favores, e jamais os fazia por recompensa ou cálculo. Esse homem raro e admirável deixou-nos para sempre.

Malgrado virtuoso, Péricles sofreu intensas calúnias. Chamaram-no de homossexual, como se esse fosse xingamento. Com ironia, comentou à sua esposa: “Querida, estou famoso: já estão me chamando de homossexual”. Chamaram-no de macaco, porque tinha a pele morena. Por conta da firmeza de suas posições, tentaram até mesmo agredi-lo fisicamente. Ignorando os riscos, Péricles continuou a levar a mesma vida de sempre, com seus hábitos regulares e passeios nos fins de semana. Em plena luz do dia, andando pela av. Paulista, Péricles foi atacado pelas costas, levou uma facada que atravessou o coração e tombou morto. Não houve chance de reação. Os bandidos, embora moradores da região e conhecidos pela polícia, escaparam ilesos. Sua esposa me disse no velório que suas virtudes, mais do que seus vícios, provocaram a ira desses bandidos.

Deixemos de lado, no entanto, esses tristes acontecimentos e voltemo-nos para o seu legado. O que nos ensina a sua morte? Péricles se recusou a usar o mal para combater o mal, quando este assomou à sua porta; ao contrário, sempre se preocupou em usar o bem para expulsar o mal, beneficiando mais o Estado com seus serviços públicos do que seus assassinos com suas ações privadas o prejudicaram. Péricles se resignou a sofrer as consequências de sua postura, observando sempre seus deveres e instituindo boas práticas com seu exemplo, a ponto de pôr em risco sua própria vida, em vez de buscar uma felicidade fácil e privada.

A vida de Péricles serve de modelo para nós, que vivemos no umbral das trevas e cujos modelos, tanto velhos como novos, não passam de traidores. O exame de cada detalhe de sua vida gloriosa impressiona de tal modo que somente se pode concluir que a melhor vida é a vida segundo os princípios de Péricles. Sei que sentir isso é difícil nos dias de hoje, quando uma grande tristeza se abate sobre nós, em especial para sua esposa e filhos. Estes chegarão à vida adulta, quando terão a oportunidade de educar os netos de Péricles tal como o próprio Péricles foi ensinado. Os melhores conselhos são dados por aqueles que pensam nas gerações futuras. Para essas gerações, o fardo desta tristeza será menor e, talvez, será possível escapar de arapucas sorrateiras. Seus amigos devem se sentir orgulhosos de ter convivido com ele e, agora que ele está morto, retribuirão sua amizade com palavras honrosas e boa vontade. Se couber uma última observação, falarei às mulheres: elas nunca foram tão respeitadas e apoiadas como por Péricles, nem se promoveram tantos avanços nessa área, e é por isso que elas, alvo de tantas violências, prestam-lhe homenagem nesse momento em que seu caixão desce a rampa.

 

Nota de esclarecimento: Péricles foi o principal político da democracia ateniense. O discurso fúnebre proferido por ele, no final do primeiro ano da longa guerra do Peloponeso, que acabou por destruir a democracia ateniense, é um dos mais belos elogios à democracia. Ao honrar os mortos, Péricles escolheu descrever os méritos da democracia ateniense, em nome da qual tantos entregaram suas vidas. Esse discurso, no qual me baseei inteiramente, inclusive parafraseando o texto original, foi relatado por Tucídides em sua monumental obra: História da guerra do Peloponeso, livro 2, capítulos 35-46.

 

Ilustração: Rafael Moralez

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