Resposta a Pondé

 

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Arthur Hussne Bernardo

Terrorismo ideológico e desinformação. É isso – e nada mais – que encontramos no artigo “História do Brasil do PT” de Luiz Felipe Pondé. Publicado no dia 18 de abril, esse escrito avança a seguinte argumentação: agora que o impeachment está praticamente dado, há que se levar a cabo a destruição da esquerda. Para isso, é necessário acabar com a hegemonia cultural instalada pelos petistas e seus consortes, começando pela universidade, pois é lá que se forma a História do Brasil construída pelos esquerdistas de carteirinha; história que será ensinada a nossos filhos e netos – produzindo, por meio da doutrinação eficiente dos professores, mais um exército de esquerdistas empedernidos. Ademais, é necessário se dar conta da inexistência de uma “opção liberal” no Brasil e, assim, tentar fincar raízes liberais não apenas na universidade, mas em todo os grupos que edificam a cultura brasileira. Claro que isso depende do financiamento da elite econômica brasileira, que é, todavia, tacanha por não enxergar esse quadro tão didaticamente retratado pelo autor.

Se há algo a ser elogiado nesse amontoado de besteiras é a honestidade do colunista. Ele não esconde o jogo: agora, trata-se não só de tirar o PT do poder, mas também de aniquilar a cultura política de esquerda. Está lá, nu e cru. Para isso, dinheiro dos empresários, por favor, porque não se pode fazer esse digno trabalho sem investimentos. Aliás, trabalho não apenas digno, mas também árduo; Pondé e seus colegas que o digam: alguns há mais de uma década na labuta. Como ele mesmo escreve, a esquerda não vai acabar em um passe de mágica: é preciso empenho. Por aí se vê a concepão de democracia que esse pessoal sustenta. Mas se há algum elogio, ele acaba aqui. E que se diga desde já: trata-se de peça de pura paranoia ou de má-fé. Ou talvez da mistura das duas coisas.

Para desmistificar o texto, é preciso dizer que Pondé incorre em generalizações absurdas: “Quem escreve os livros de história no Brasil, e quem ensina História em sala de aula, e quem discorre sobre política e sociedade em sala de aula, contará a história que o PT está escrevendo”. Generalização pouca é bobagem. Trocando em miúdos: está tudo dominado pelos petistas e esquerdistas. Não há história fora da cartilha da esquerda. Surpreende a onisciência de Pondé em saber de tudo isso. Das escolas públicas aos caros colégios particulares da elite, em todas as universidades federais, estaduais e nos centros de pesquisa, todos os professores de sociologia e filosofia: não passam de lacaios escrevendo uma história petista do Brasil. Em seu artigo, parece que não há esquerda que não seja petista e que não haja conflitos e divergências políticas e interpretativas radicais dentro da esquerda. “A” esquerda é vista como um bloco monolítico de mal intencionados que pretendem escrever uma história deturpada do Brasil com a pura função de doutrinar nossas crianças a serem os estatistas autoritários do amanhã. Além disso, é simplesmente falsa a ideia de que não há historiadores e pesquisadores liberais e conservadores nas universidades. Aliás, a artimanha argumentativa de que a esquerda, o socialismo e o PT reinam incontestes na universidade brasileira é ponto comum de muitos articulistas de direita e que, no entanto, não tem embasamento factual claro.

“Seus filhos e netos continuarão a ser educados por professores que ensinarão essa história. [História do Brasil narrada pelo PT]”; “A nova Dilma está sentada ao lado da sua filha na escolinha”. Para fins de convencimento, Pondé não abre mão do terrorismo ideológico. E nem poderia: seus argumentos são tão frágeis que é preciso apelar para o medo do comunismo e da doutrinação de nossas crianças – medo alimentado por essa bizarra teoria da conspiração que ele delineia e que é comprada por parte significativa da classe média e média-alta. Agora, nada de falar sobre a falta de merenda e a péssima infraestrutura de nossas escolas públicas, ou sobre as baixíssimas remunerações de nossos professores. Afinal, o importante é apenas que a esquerda passe longe do ensino.

A prova de que Pondé não distingue alhos de bugalhos é a colocação de Adorno, Foucault e Bourdieu lado a lado como teóricos que dominam a universidade brasileira, junto, claro, com ele: o materialismo dialético. Por extensão, essa teoria e esses autores teriam alguma responsabilidade pela situação atual do país. (Não seria demais perguntar: será que Pondé leu esses autores? Se tivesse lido, saberia das enormes diferenças entre eles. Mas como acreditamos que Pondé não cita o que não leu, devemos assumir que se trata de confusão deliberada e com clara intenção de desinformar.) Para ele, são essas leituras que formam a classe cultural do país e, por isso, ela é majoritariamente contra o impeachment. Ele parece não acreditar que algumas pessoas sejam contra o impeachment porque ele é encaminhado por um presidente da câmara que é réu na Lava-Jato, por se tratar de processo injusto e com graves deformidades, por ser votado por um Congresso afundado na corrupção, por ter base jurídica infundada e carente de jurisprudência, mas porque são escravos de um determinado sistema de pensamento. A “inteligência”, com aspas, é escrava da esquerda, diz Pondé. Por outro lado, a inteligência, sem aspas, é a senhora da verdade. Não por acaso, Pondé escreve a certa altura: “Se você não acredita no que digo é porque você é mal informado”. Argumento sólido e racional, digno de um “filósofo”, com aspas.

Indo contra todas as evidências recentes de uma ascensão ideológica fulminante da direita, e contra uma longa tradição intelectual liberal e conservadora, Pondé quer fazer crer que a cultura política recente sobre o Brasil é exclusivamente construída pelo “PT e associados”. O que ele não diz é que há sim, diferente do que ele escreve, uma historiografia liberal. Basta pesquisar. Além disso, há pelo menos uma década, articulistas, jornalistas, formadores de opinião e “pensadores”, com aspas, fracos e monotemáticos ocupam a mídia – TV Cultura, massiva e vergonhosamente aparelhada pelo governo do Estado de São Paulo, Folha, Estadão, Globo, CBN, Jovem Pan, VEJA – e isso Pondé não fala. A história do Brasil não é petista e tampouco de esquerda para quem se informa pelos grandes canais televisivos, pelos jornais de maior circulação ou pela maioria dos rádios de notícias. Ou para quem lê certos historiadores que são colegas de Pondé. Monopólio cultural da esquerda? Menos vitimismo, Pondé.

Depois de dizer que “inexiste praticamente opção liberal” em comparação com a rede de esquerdistas organizados, Pondé propagandea o Vem Pra Rua e o Movimento Brasil Livre (MBL) como grupos que apontam para a “opção liberal” no Brasil. Sobre isso, seria preciso dizer o que pouca gente falou: esses movimentos – longe do aparente amadorismo heróico e romântico e da articulação espontânea e natural – são formados por redes de profissionais que se dedicam a fazer articulações políticas, captação de recursos, inflamação ideológica e mobilizações antipetistas e anti-esquerda. Tudo isso com alto grau de organização político-estratégica, uma narrativa atraente para as classes médias e clareza ímpar de seus objetivos. Pedindo a comiseração das elites, Pondé gostaria de vê-las financiando esses desamparados grupos de jovens que pretendem oferecer uma alternativa intelectual à direita para o Brasil, como se isso já não ocorresse. Desamparados e sem financiamento? Nada mais distante da realidade

Impressiona que um artigo tão rasteiro, com desvios gramaticais, generalizações escabrosas, desinformação e argumentos tortuosos ocupe uma das colunas mais importantes do jornal de maior circulação no país. Por esses motivos, e para não incorrer na mesma generalização absurda de Pondé, devemos acreditar que, se ele é um representante das direitas, trata-se, sem dúvida, do que há de pior nelas…

Ilustração: Rafael Moralez

 

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2 respostas para Resposta a Pondé

  1. Daniel golovaty cursino disse:

    Boa resposta. Para este ponde tudo que é de esquerda faz parte de uma obscura seita conspiratória que se infiltra ardilosamente nas instituições sociais com objetivos espúrios de dominação. Com isto ele não apenas deslegitima o pensamento de esquerda – que está claro que ele mal conhece – mas também estigmatiza e desumaniza quem pensa diferente dele. Se ele tivesse lido um pouco de adorno , correria o risco de perceber a homologia da estrutura mental dele com a paranoia antissemita.

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  2. Juan Gamarra disse:

    Republicou isso em dias incertos.

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