MOLAS

Alberto Martins

20160408_162920

porque ninguém é uma árvore

à beira de um regato

e produz frutos suculentos o ano inteiro

 

os canais de irrigação estão cobertos de pó

os justos torcem as palavras

os impostores andam em linha reta

 

porque os piratas desembarcaram

porque os piratas desembarcaram

agora é o alto mar

 

porque o cotovelo tornou-se a articulação

mais utilizada do corpo

em prejuízo dos pés e dos ouvidos

 

porque os ouvidos

de tanta tolice murcharam

e foram parar nas axilas

 

porque as escolas fecharam as portas

os gafanhotos cagam nas plantações

e a corneta é de prata mas não soa

 

porque um grama

pesa

uma tonelada

 

as fontes de Palmira secaram

e o ódio corta de um lado para o outro

como vento nas esquinas

 

porque a sombra do chacal subiu no muro

e espreita lá do alto

acenando com jujubas para a assembleia

 

porque a pimenta é um gás

a soja outro gás

até os legumes babam de raiva

 

porque os grampos são grampeados

os telefones telefonados

e um grama pesa uma tonelada

 

os guardas incendiaram os remos

verrumaram as tábuas

e a ilha de Safo virou um cemitério

 

porque agora o sacrifício

é apenas sacrifício

a penitência só uma penitência

 

porque perdemos a arma do riso

porque os ladrões ladram e os cães

na sua mudez parecem sábios

 

Senhora, ria por nós

Ilustração: Daniel Nasser

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