Contra e para além do impeachment

DRM_azul

por Luiz Marques

O impeachment está vindo a galope. Tentar barrá-lo é preciso, inclusive porque abre um precedente perigosíssimo para a democracia brasileira. Em caso de êxito desse golpe de uma oposição sem mensagem e fracassada nas urnas, será preciso condená-lo de modo veemente. Embora, politicamente, de nada adiante lamentar, eu lamento, pessoalmente, em ordem crescente:

(1) O fato de Dilma não ter sido acusada com base em fatos nas investigações do Lava Jato. Impedi-la por manobras fiscais indevidas é obviamente insuficiente e implicaria interromper o mandato, hoje e desde sempre, da maioria dos governantes federais, estaduais e municipais no país.

(2) O fato de o processo em curso estar crivado de atropelos. A situação descambou para o império do vale-tudo e do “dois pesos e duas medidas”. As denúncias contra políticos do PMDB e do PSDB, graves e numerosas, têm tido pouca ou nenhuma ressonância na imprensa e na justiça. Longe de manter a imparcialidade requerida de um juiz, Moro inebria-se nos ombros da operação “Derruba”. Os vazamentos de escutas telefônicas não visam o avanço das investigações, mas a execração pública dos “suspeitos” (já que Lula não é sequer réu). A intenção é linchar, não julgar.

(3) O fato de o processo de impeachment estar sendo conduzido por uma casa presidida por um Arturo Ui e manobrada por seus associados, em uma inversão clamorosa em que réus e homens sob forte suspeita de conduta criminosa se arrogam a posição de prud’hommes.

(4) O ódio fóbico de setores crescentes (e provavelmente hegemônicos) da classe média ao PT e ao governo, um espetáculo assustador de irracionalidade, fomentado pela imprensa (notadamente pela tóxica revista “Cegue-se”) e pelo empresariado. Em numerosos casos, essa fobia torna-se em hidrofobia: uma histeria cega e vociferante, típico reflexo local do “desvio para a direita” da classe média em outros países, como os EUA de Trump, a Alemanha da AfD e o eleitorado sobre o qual se erguem os partidos e os novos governos de extrema-direita na Europa.

(5) Lamento não menos a conduta do PT e de seu governo, que reuniam as condições históricas para serem parte da solução e se tornaram parte substancial do problema. Perderam-se, rebaixaram-se ao nível dos piores, serviram e identificaram-se ideologicamente com os setores mais conservadores do país (o comadrio de Dilma e de Kátia Abreu é simbólico e didático), arruinaram uma oportunidade histórica, talvez irrecuperável, para o país e roubaram o mais precioso e insubstituível patrimônio de um povo, seu patrimônio natural.

(6) Lamento, principalmente, o fato de que, enquanto nos debatemos a esse respeito, as crises ambientais se aprofundam e a tendência ao colapso ambiental se acelera. Os dados são acachapantes, convergentes e agem em sinergia. Já estamos possivelmente transitando, hoje, em 2016, da fase da aceleração para a fase irreversível da precipitação. E quanto mais os sintomas do colapso se multiplicam e se escancaram, mais nos recusamos a percebê-los e mais investimos nossa energia no atual enfrentamento. Trata-se de um caso de monstruosa denegação de evidência, de inversão de prioridades, de dissonância cognitiva, de árvore ocultando a floresta, de autoengano suicida, de tudo isso ao mesmo tempo.

22 de março de 2016

Ilustração: Rafael Moralez

Anúncios
Esse post foi publicado em Sem categoria. Bookmark o link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s